Não é por nada que eu me policio desde que vim pra cá.
Aqui está a prova do que eu falava com algumas pessoas um tempo atrás.
Carioca é muito ingênuo e não percebe que essas expressões começaram a invadir seu dia-a-dia. Começam a repetir sem reparar nas nefastas consequências.
Esse é um ótimo texto publicada no jornal "O Globo" deste domingo.
O imperialismo da hora, tá ligado?
http://oglobo.globo.com/oglobo/suplementos/segundocaderno/35512162.htm
Arnaldo Bloch
Então, leitor, fica ligado que este texto é sobre um fenômeno super-cabeça-incrível que invade as baladas cariocas e demanda uma análise show para a moçada não dizer depois que não está entende iiindo .
Você não tem noção! Já faz tempo que a gente anda falando assim meio apaulistado, misturando influências alienígenas ao nosso jeitão carioca, e achando que tudo isso é bem legal. Não é abobrinha não. É coisa da hora mesmo, altamente subliminar, muito séria.
Faz tempo que o Rio não exporta mais atitudes
Os dicionaristas atendem ao GLOBO dizendo serem necessários dez anos para confirmar documentalmente o fenômeno. Mas o imperialismo cultural paulista é uma realidade inegável. Não é bairrismo não, nem paranóia. Imagina! Faz tempo que o putzgrila , ou o sincopado sifu , da época do “Pasquim”; o jeito Evandro Mesquita de se expressar; ou até a cadência do Romário andam dividindo a bola com as gírias e expressões que movimentam a turma de lá. E, se o Rio de Janeiro já foi o grande exportador nacional de atitudes, hoje está difícil tomar uma atitude e equilibrar esse jogo.
Será que ainda não caiu a ficha? Ou porventura estaríamos algo lesados?
Faz tempo que Chacrinha não alucina e que a hora da buzina não é mais da hora. A Terezinha, coitada, não responde mais ao chamado. E se a gente liga a TV no fim de semana, tem duas guerras embaçando a nossa percepção: no sábado, é Raul Gil contra Huck e no domingo, Gugu contra Faustão. Na Xuxa, os mano e as mina chegaram para ficar, e foi ordem firme da Marlene Mattos. É show, gente. É dez, viu? É tudo!
Até o samba é reivindicado pelo dito túmulo do próprio
E o samba? Bom, o samba é nosso, talvez da Bahia, mas a questão não é mais essa, moçada. Max de Castro está dizendo que não, que herdou toda a tradição e assumiu a vanguarda. Herdou tudo, ele é a nova música brasileira. É com esse discurso que andou apresentando-se em palcos paulicéios, substituindo em grandes painéis as figuras de Jobim etc por sua presença consagrada pela “Time Magazine”. Incontestável, até porque, como todos sabemos, Manhattan é um satélite de SP, certo?
Mas voltando para a TV, no cabo a coisa também está bárbara: liguei para o Pecegueira, diretor da Globosat, ele é superlegal, me atendeu logo, e confirmou que a política continua sendo tirar gás do carioquês antes predominante e aumentar o volume do outro lado da ponte. Pecegueira explicou que a base das assinaturas na TV a cabo é São Paulo, e que a base do público telespectador da TV aberta também é. E todos sabemos onde está o mercado publicitário. A gente compreenderia se fosse só isso... mas não é.
E as rádios? É só ligar a Transamérica e a Jovem Pan que a gente pensa que está em São Paulo: e está mesmo, via satélite. É balada para cá, balada para lá. Se ligar na hora do rush o ouvinte vai se sentir na Marginal e acelerar na direção do mar, mas cuidado que na frente vai ter uma perua, quer dizer, uma van. Ou será perua? Tanto faz.
Na outra linha, Ziraldo atende. Acha que Ipanema e bossa nova foram as últimas grandes influências de peso, e que o Rio perdeu tudo, acabou. Exagero, tivemos 26 poetas, o Circo, a Blitz, o Barão... e hoje o funk. E temos a Sapucaí! Tá bom ou quer mais?
A propósito, Ziraldo conta uma cavernosa. Não é piada. Esteve em São Paulo em reuniões para o lançar do novo “Pasquim”. Numa agência, conversava com a mocinha de mídia, antenada com o marketing mauriçola. Ao examinar o projeto renovado da tradicional publicação carioca, não gostou e fez uma ressalva:
— Então, Ziraldo, não sei, acho que está uma coisa assim super-regional.
É isso. O Rio não acabou. Apenas “virou regional”. Fala sério! Aliás, essa expressão, em parte popularizada pelo Bussunda, é carioca, mas, se a gente ficar atento, vai ver que a entonação vem encorpando uma certa musicalidade suspeita... o Bussunda diz que não, e o Ed Motta reflete um pouco... e então a conversa acaba desviando para a culinária. Ele lembra que é só dar uma chegada na Dias Ferreira no Leblon, e constatar que pintaram recentemente uns estabelecimentos assim meio de teto alto, meio estilo loft, meio Manhattan... o serviço não é tão bom como em São Paulo, diz o Ed, e aí eu respondo na agulha: “ih, olha o cara aí, colonizado...”
Nada contra São Paulo, claro. Tem que ver que essa fusão, esse crossover pode ser bem legal, como disse a nossa Fernandinha Abreu quando telefonei para ela. Mas é que tem umas coisas um pouco difíceis de absorver. Por exemplo, outro dia fui fazer compras e a vendedora pediu o RG. Eu respondi, puxando o sotaque:
— Eu não estou entende iiiindo ...
Ela repetiu, pausadamente. Resisti. Olhei-a fixamente, num silêncio agressivo. De repente, a moça estremeceu e voltou a si:
— A identidade, meu amigo. A identidade.
Aí eu sorri aliviado e abri a carteira. Então, cheguei em casa e telefonei para a oficina, querendo saber se podia pegar o meu carro que estava na revisão. O gerente não estava lá, mas a secretária me garantiu:
— Pode deixar, doutor Arnaldo, que eu vou estar passando o recado para ele, e ele vai estar ligando para o senhor amanhã sem falta. Enquanto isso, eu vou estar pedindo para o orçamentista o desconto que o senhor solicitou.
Ela deve ter me achado mal educado, pois desliguei sem nada acrescentar. Mas não foi falta de educação. Tratou-se de reação emocional, provocada pelo contato prolongado com o jargão de consultoria americana fazendo reengenharia gerencial nas áreas de atendimento e telemarketing. As receitas traduzidas literalmente do inglês estão muito em voga em São Paulo. E nos nos chegam assim sorrateiramente ao litoral. Socorro!
A gambé subiu o morro e prendeu os traficantes
Tem muito carioca que diz que esse papo é besteira, que o negócio é desencanar mesmo. Mas não é fácil. Quem assistiu ao filme “O primeiro dia”, do Walter Salles, e viu o Matheus Natchergale fazendo um carioca estereotipado repetindo alucinadamente “está ligado” teve elementos para entender o que eu digo. O pessoal de quadrinhos, por outro lado, andou reclamando de tradução recente das aventuras do Cable, herói mutante da Marvel, em que a ação se passa nas favelas cariocas, onde as investidas da “gambé” se fazem sentir. Quer que traduza? “Gambé” é polícia. “A gambé subiu o morro.” “A gambé deu uma blitz no Aterro”. Coisa bonita, que nem chegou aqui a e já está virtualmente superinserida no contexto.
E o Tom Leão, DJ, jornalista aqui do GLOBO, que outro dia comprou um DVD dos Simpsons,“O show de Otto”. Pois vejam só, o Otto, motorista do ônibus escolar dos Simpson Jr, teve que tirar uma nova carta de motorista. Onde no Brasil, além de SP, o sujeito tira uma carta de motorista?
Bom, vamos parar por aqui, porque o Gerald Thomas acaba de responder a um mail, de NY, dizendo que essa coisa de guerra de linguagens entre Rio e São Paulo é cretinice. Agora que ele saiu do Rio...